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O Castelo das Damas

Schloss_Chenonceau

Há castelos que impressionam pela força das muralhas. E há aqueles que seduzem pela inteligência de sua arquitetura e pela complexidade de sua história. Chenonceau pertence à segunda categoria. Não por acaso foi apelidado de Château des Dames: o Castelo das Damas.

Uma joia sobre as águas
Erguido entre 1514 e 1522 sobre as fundações de um antigo moinho medieval, às margens do rio Cher, no Vale do Loire, Chenonceau é uma das construções mais fotografadas da França.
Sua silhueta é inconfundível: uma galeria de dois andares atravessando o rio como uma ponte habitável, solução arquitetônica rara no Renascimento europeu.
Mas o que o torna singular não é apenas a elegância da pedra clara de tuffeau nem a precisão geométrica de sua planta. É a sucessão extraordinária de mulheres que o moldaram ao longo de cinco séculos, cada uma acrescentando camadas de poder, estética e estratégia.

Vista aérea do Castelo de Chenonceau

Vista aérea do Castelo de Chenonceau

As senhoras que moldaram o castelo
Chenonceau é, antes de tudo, uma narrativa de influência feminina.
Katherine (Catherine) Briçonnet (1513–1521): Esposa de Thomas Bohier, foi ela quem supervisionou de fato a construção do castelo enquanto o marido servia a Coroa. Não era formalmente arquiteta, mas tomou decisões estruturais e estéticas decisivas. O castelo renascentista que conhecemos nasce sob sua direção.

Diane de Poitiers (1547–1559): 
Favorita de Henrique II, recebeu Chenonceau como presente real. Mandou criar os jardins formais que ainda hoje levam seu nome e ordenou a construção da ponte sobre o Cher, a estrutura que definiu o perfil do château.
Importante nuance: a ponte é obra de Diane; a galeria que a cobre viria depois.

Catarina de Médici (1559–1589)
: Após a morte do rei em 1559, Catarina exigiu que Diane devolvesse Chenonceau e a obrigou a aceitar, em troca, o Château de Chaumont-sur-Loire.
Foi Catarina quem transformou a ponte em uma galeria monumental de dois andares, acrescentando a estrutura que hoje atravessa o rio. Ali organizou festas políticas calculadas, espetáculos que eram menos lazer e mais afirmação de poder.

Louise de Lorraine (1589–1601)
: Viúva de Henrique III, retirou-se para Chenonceau após o assassinato do marido. Viveu ali em luto permanente, vestindo branco, cor tradicional do luto real francês, e mandando decorar seus aposentos com símbolos fúnebres. Sua dor não foi metáfora literária: ficou literalmente inscrita nas paredes.

Retratos de Catarina de Médici e Diane de Poitier

Retratos de Catarina de Médici e Diane de Poitier

Duelo político
A rivalidade entre Diane de Poitiers e Catarina de Médici não foi apenas sentimental. Foi política. Diane, cerca de vinte anos mais velha que Henrique II, dominava a corte. Influenciava nomeações, mediava favores, moldava decisões. Catarina, rainha legítima, aguardava.
Quando o rei morreu após um acidente em torneio, o equilíbrio de poder evaporou. Catarina agiu com rapidez. Exigiu a devolução de Chenonceau e consolidou sua autoridade como rainha-mãe e regente. Diane foi enviada para seu retiro definitivo no Château d'Anet.
Chenonceau tornou-se o palco da política de Catarina.

O castelo nas tempestades da história
Chenonceau atravessou guerras e revoluções com notável capacidade de adaptação.
Na Revolução Francesa, escapou da destruição em parte porque a família proprietária, a influente família Dupin, mantinha boas relações com a população local.
Na Primeira Guerra Mundial, a galeria serviu como hospital militar, e na Segunda Guerra Mundial, o castelo assumiu um papel estratégico singular: o rio Cher marcava a linha de demarcação entre a zona ocupada e a França Livre. A galeria que atravessa o rio permitia cruzar de uma margem à outra. Foi utilizada como rota de passagem para fugitivos e membros da Resistência. Não era apenas um símbolo poético de transição, era um corredor real entre ocupação e liberdade.

Galeria do Castelo de Chenonceau

Galeria do Castelo

 

Se Chenonceau despertou sua curiosidade, talvez seja hora de ir além da leitura. Uma viagem ao Vale do Loire para descobrir seus castelos mais emblemáticos. Você já conhece a história. Agora veja os cenários de perto. Saiba mais no link: biarritz.net.br/home/regiao/centre-val-de-loire-tours-bourges-

 

Sobre o autor: Meu nome é Günther Masi Haas, designer multimídia na Biarritz Turismo e pesquisador independente apaixonado por história e cultura francesa. No blog, escrevo sobre história da França, tradições francesas, curiosidades históricas e patrimônios culturais que marcaram o país ao longo dos séculos.

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