Hamburgo e os Beatles

Muito antes da Beatlemania dominar o mundo e dos Beatles se tornarem os Fab Four, eles eram apenas uma banda jovem e inexperiente de Liverpool, buscando desesperadamente encontrar sua identidade musical.
Os Primeiros Passos
Tudo começou em 6 de julho de 1957, durante uma feira paroquial em St. Peter's Church, em Woolton. John Lennon, então com 16 anos, tocava com sua banda The Quarrymen quando conheceu Paul McCartney, de 15, que impressionou ao tocar Twenty Flight Rock no piano.
Paul logo se juntou à banda, e no ano seguinte trouxe George Harrison, um guitarrista talentoso de apenas 14 anos. A formação se completou com Stuart Sutcliffe, amigo de John na faculdade de arte, que comprou um baixo com o dinheiro de uma pintura vendida.
Apesar do talento, ainda lhes faltava experiência, disciplina e uma identidade musical própria. Foi então que Allan Williams, dono do Jacaranda Club, recebeu uma proposta inusitada: clubes em Hamburgo, na Alemanha, buscavam bandas inglesas para animar suas noites.
De Liverpool para Sankt Pauli
Em agosto de 1960, John, Paul, George, Stuart e Pete Best (baterista) embarcaram em uma van apertada rumo a Hamburgo. Ainda se apresentavam como "The Silver Beatles". O destino era Sankt Pauli, distrito da luz vermelha de Hamburgo, conhecido por sua vida noturna caótica.
Ao chegarem, encontraram um mundo muito diferente de Liverpool. O bairro pulsava com uma energia bruta: marinheiros, gangsters, prostitutas e um público que exigia intensidade. Era o lugar perfeito para amadurecer, ou para naufragar.
O Indra e o Kaiserkeller
A primeira residência da banda foi no Indra Club, um porão estreito e abafado. Dormiam em quartos improvisados atrás de uma antiga tela de cinema, enfrentando o frio de inverno alemão sem aquecimento. As apresentações duravam até oito horas por noite, sete dias por semana.
Forçados a manter o público entretido, os Beatles aprenderam a se apresentar de forma vibrante e provocadora. John Lennon frequentemente gritava Mach Schau! (façam um show!) enquanto a banda desenvolvia uma presença de palco enérgica e teatral.
Paul McCartney relembra: "Hamburgo foi onde realmente aprendemos a tocar."
Os Personagens de Sankt Pauli
Hamburgo não ofereceu apenas palcos. Ali conheceram Astrid Kirchherr, a fotógrafa que se apaixonou por Stuart Sutcliffe e capturou algumas das imagens mais icônicas da banda. Foi ela quem inspirou os cortes de cabelo mop-top, que viriam a se tornar marca registrada dos Beatles.
Klaus Voormann, amigo de Astrid e futuro colaborador da banda, também entrou em cena. Mais tarde, tocaria com John Lennon e desenharia a capa do álbum Revolver.
O Preço da Formação
A vida em Sankt Pauli era intensa e perigosa. Os Beatles se envolveram em brigas, foram expostos a drogas (principalmente anfetaminas) e viveram na pobreza. Stuart decidiu permanecer em Hamburgo com Astrid, deixando a banda em julho de 1961 para se dedicar à arte.
Tragicamente, ele morreria em abril de 1962, aos 21 anos, vítima de uma hemorragia cerebral. Sua morte abalou profundamente John Lennon e marcou um fim silencioso de uma fase fundamental da banda.
As Três Temporadas em Hamburgo
A primeira temporada, em 1960, terminou abruptamente: George foi deportado por ser menor de idade, e Paul e Pete Best foram presos por acender preservativos como velas. A banda se desfez temporariamente, mas retornaria.
Em abril de 1961, os Beatles voltaram (sem Stuart), agora com Paul assumindo o baixo. A segunda residência foi no Top Ten Club, onde a banda, mais entrosada, começava a se destacar.
A terceira e última passagem foi entre abril e dezembro de 1962, no recém-inaugurado Star-Club. Já com Love Me Do gravada e fazendo sucesso na Inglaterra, a banda encerrava ali um ciclo essencial.
Ao deixarem Hamburgo, os Beatles não eram mais garotos inexperientes. Haviam tocado mais de 1.200 horas ao vivo, criado um repertório vasto e, sobretudo, descoberto quem eram como artistas. Hamburgo não foi apenas um destino: foi a forja que os transformou na maior banda de todos os tempos.
Sobre o autor: Meu nome é Gunther Masi Haas. Sou desenvolvedor web, e atualmente trabalho também como designer multimídia na Biarritz Turismo. Apaixonado por cultura e história, escrevo sobre diversos aspectos da história da França (e de vez em quando Alemanha) e suas ricas tradições. Para saber mais sobre meu trabalho, siga o blog e acompanhe minhas publicações.
Voltar



